O batismo com Espírito Santo conforme o Novo Testamento - parte 03

 Até agora só vimos argumentações negativas. Vejamos então argumentações positivas.

POR QUE AFIRMO QUE O BATISMO COM O ESPÍRITO É A CONVERSÃO?
No Novo Testamento há sete alusões ao batismo com o Espírito Santo, sendo que quatro delas feitas por João Batista, no replay que os evangelhos sinópticos fazem da sua pregação. São os seguintes: Mateus 3:11, Marcos 1:8, Lucas 3:16, e João 1:33. Diz João, no cap. 3:1: “E vos batizo com água, para arrependimento, mas aquele que vem depois de mim (...) ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. As quatro primeiras afirmações desta teologia são de João, que gostava tanto de batizar que recebeu um título: Batista.

A quinta alusão é feita por Jesus antes de ser assunto aos céus. Em Atos 1:15 ele diz aos discípulos: “João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois de sete dias” A outra é feita por Pedro em Jerusalém, quando explica aos judeus ortodoxos ─ racistas, bloqueados e incapazes de compreender o que havia acontecido na casa de Cornélio ─ que o que lá sucedera fora o batismo com o Espírito Santo conforme se deu com eles, como Jesus disse que seria e João vaticinara. Em Atos 11:16 Pedro reafirma o que Jesus dissera. A última alusão, a sétima, aparece em I Coríntios 12:13, onde Paulo diz: “Pois em um só Espírito todos nós fomos batizados em um corpo (...) E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”.

Preste atenção, porque esta é a parte mais completa da nossa argumentação. Das sete passagens mencionadas, I Coríntios 12:13 é a única que revela para quem é o Espírito Santo; as seis anteriores não esclarecem muito a respeito de para quem é o batismo. Dizem apenas que Jesus é quem batiza com o Espírito. Mas Paulo vem e diz para quem ele é: para todos, “todos nós [que] fomos batizados em um só corpo (...) e todos [a quem] foi dado beber de um só Espírito”. Neste texto Paulo prova a unidade do Corpo de Cristo pela diversidade dos dons e convergência de todos no batismo com o Espírito Santo.

Note que nos onze versículos o apóstolo estava falando de dons. E apresenta uma lista de nove dons. Aí ele diz que todos fomos batizados num só Espírito, num só corpo. Observe que este é um texto carismático. Depois, do v. 13 do cap. 12 em diante, o apóstolo começa a comparar a igreja ao corpo humano. E diz que no corpo, o que difere um membro do outro é a função de cada um. Assim como ninguém come maçã com o olho nem penteia o cabelo com o pé, de igual modo não realizamos nossas funções como igreja ou indivíduos sem o auxílio mútuo. Fora do Caminho da Graça em Cristo, não há caminho a ser feito!

Também o que faz diferença entre cristão e cristão, no Corpo de Cristo, não é ser um ou alguns deles batizados com o Espírito Santo, mas terem diferentes dons. Enquanto um é olho, o outro é ouvido; um tem dom de cura, outro de profecia; um tem visão, outro discernimento de espíritos.

É só ler a Bíblia com os contextos antecedentes e imediatos que as coisas ficam claras e as discussões, tolas. Portanto, o que Paulo está querendo provar é a diversidade no Corpo de Cristo, e ao mesmo tempo sua unidade na convergência de todos os cristãos no batismo com o Espírito Santo. Somos diferentes uns dos outros porque temos dons diversos, mas todos fomos batizados num só Espírito, num só Corpo.

Neste texto Paulo diz que o batismo e os dons são para todos. Ninguém pode pensar de outra forma. Nos quinze versículos ele estava falando de dons. No contexto imediato, ele afirma que todos nós os temos, e todos fomos batizados, no e pelo Espírito. No Pentecoste, Pedro citou a profecia de Joel 2:28, que diz que o Espírito do Senhor se derramaria sobre toda carne. E aquilo a que os judeus assistiram no Pentecoste foi o cumprimento dessa promessa. Em Atos 2:17-21, Pedro cita o texto de Joel, prega com base nele e reafirma o que ele predissera.

Tenho agora uma pergunta: que “toda carne” é essa, acerca da qual Joel fala e Pedro reafirma? “O Espírito do Senhor se derramará sobre toda a carne”, diz Joel; e Pedro confirma: “O que vocês estão vendo acontecer é o mesmo que Joel afirmou que aconteceria ─ o Espírito do Senhor se derramando sobre toda carne”. Mas apenas cento e vinte haviam recebido. Que “toda carne” é essa? João 17 fará você entender quem é “toda carne”. Jesus, orando, disse: “Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti; assim como lhe conferiste autoridade (...)” Autoridade sobre que? Sobre “toda carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos (...)” Todos quem? Quem é toda carne com base neste texto? “... os que me deste!”

Portanto, o que as Escrituras estão de fato nos ensinando é que toda carne (preste atenção nisto!) somos todos nós de I Coríntios 12 e 13, os que cremos em Jesus. O batismo com o Espírito Santo é algo que acontece com todos nós, quando recebemos a vida eterna (Jo. 17:2); quando recebemos a benção que Jesus Cristo conferiu a toda carne dos que crêem nele. A ênfase de Joel em toda carne não é ênfase quantitativa, mas qualitativa. O contexto imediato (Jl. 2:28-29) explica o que é toda carne; velhos, jovens, servos, servas, crianças... Sobre todos eles “derramarei meu Espírito” ─ diz. O sentido era esse: o derramamento será sem discriminação, se que se classifiquem os homens por cor, cultura, idade, sexo etc. E isso tem coerência coma teologia de Gálatas, onde se diz que nós recebemos o Espírito, e agora já “não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem, nem mulher; porque todos nós recebemos o Espírito da doação, somos um em Cristo Jesus”.

A teologia pentecostal contesta a posição que acabo de expor, dizendo que o texto de I Coríntios 12:13 não está se referindo a batismo com o Espírito Santo, mas apenas à sua obra como batizador no Corpo de Cristo. O que se afirma é que I Coríntios 12?13 não fala de Cristo batizando com o Espírito Santo, mas o Espírito Santo batizando pessoas no Corpo de Cristo. Nesse caso, o Espírito é que é o batizador, não Cristo. Nesse caso, de acordo com essa concepção, a primeira benção acontece quando o Espírito nos batiza no Corpo de Cristo; a segunda, quando nos batiza com o Espírito Santo. Acho engraçado o fato de as pessoas tentarem dar nó em pingo d‟água. Em tal situação o batismo com o Espírito Santo é algo que Jesus faz, mas o cumprimento de I Coríntios 12 e 13 é algo que o Espírito realiza, tudo a fim de harmonizar o texto com uma visão teológica a priori aceita.

Vamos ver que respostas podemos dar a isso. Começamos dizendo que todo batismo tem quatro partes, teologicamente falando. É isto o que verificamos na Bíblia. Em primeiro lugar, o batismo tem que ter um batizador, um batizando e o elemento com que batizar. Tem que ter também propósito ou finalidade; ou seja, um princípio teológico que o determine.

O Novo Testamento apresenta quatro batismos diferentes. O primeiro está em I Coríntios 10:1,2, e nele Paulo compara a peregrinação do povo de Israel à peregrinação da Igreja do N.T. Diz ele: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés. Todos ele comeram de um só manjar espiritual (...)” Paulo está se referindo ao batismo que o povo de Israel recebeu quando saiu do Egito, o qual mostra que Deus é batizador, os batizandos são o povo de Israel, e o elemento é a água da nuvem (Sl. 77:17). E mais ainda: o propósito era batizar na lei. A Escritura diz que todos eles foram batizados com respeito a Moisés ─ ou à lei. Segundo tipo de batismo sobre o qual o N.T. nos fala é o batismo de João Batista. Quem era o batizador? João. Quem eram os batizandos? Jerusalém e circunvizinhanças do Jordão, é o que diz Marcos 1:15. O elemento? Água do Jordão. É o propósito? Arrependimento.

O terceiro tipo de batismo é o batismo cristão, que praticamos no templo. Quem é o batizador? É o ministro cristão. Os batizandos? São os cristãos confessos. Qual é o elemento? A água ─ pouca ou muita, mas água. O propósito? Batizar na morte e ressurreição de Jesus, conforme Romanos 6. É essa a teologia que se desenvolve prioritariamente na questão do batismo cristão.

E o quarto batismo? É o batismo com o Espírito Santo. O batizador é Jesus. O batizando? Qualquer membro do Corpo de Cristo. E o elemento? É o Espírito Santo. E o propósito? Integrar no Corpo de Cristo.

Diante disso, temos que concluir o seguinte: o batismo de I Coríntios 12:13 ─ conforme entendido pela convencional teologia pentecostal ─ faz do batismo algo anômalo. Se entendermos que o batismo que Paulo menciona nesses textos não é batismo com o Espírito Santo e sim o Espírito Santo batizando pessoas, esse é, afinal, um batismo aleijado. Vejamos a razão: é que este é um batismo sem batizador e sem elemento; porque, se o batizador é o Espírito Santo, os batizandos apenas os cristãos consagrados; o propósito, conceder poder, quem é então o elemento? Será esse porventura um batismo sem elemento? Alguém diria: Jesus é o elemento! Com base em quê se afirma isso? ─ pergunto. Em nenhum momento no N.T. Jesus é o elemento batismal. Ele é sempre o batizador. Por que, pois, apenas neste batismo seria ele o elemento? Há alguma teologia no N.T. que coloque Jesus como elemento de alguma coisa? O Espírito, sim, sobeja como tal. Mas, Jesus, não. Ele é o Cordeiro, o batizador, o Senhor; não é o elemento, em momento algum.

Se, à maneira da teologia pentecostal, afirmamos que esse batismo de I Coríntios 12:13 não é o batismo com o Espírito Santo, e sim o batismo que o Espírito Santo faz batizando pessoas no Corpo de Cristo, então esse é um batismo teologicamente aleijado, já que o desprovido de elemento ─ o que é impossível acontecer. Mas se você diz: “Não, o Espírito Santo é o elemento”, eu pergunto: Quem é o batizador? Se Jesus Cristo é o batizador, então o batismo de I Coríntios 12:13 é de fato o batismo com o Espírito Santo. Você não tem como escapar. E, neste caso, isso acontece na conversão, e é para todos os cristãos, não apenas para os mais consagrados.

Como não é possível pensar num batismo anômalo, temos que admitir que para que o
batismo de I Coríntios 12:13 fique teologicamente completo, ele tem que ter quatro partes, e a única maneira de as ter é entendermos que ele é o próprio batismo com o Espírito Santo. Se admitirmos que I Coríntios 12:13 é o batismo com o Espírito, então somos forçados pelo texto a acreditar que todos os que são verdadeiramente salvos o possuem, pois tal terminologia é apenas um sinônimo teológico de regeneração e novo nascimento.
Note bem agora uma explicação. Estou dizendo que o termo batismo com o Espírito Santo tem sido mal empregado. Quando você lê certos livros que falam de gente que chorou, falou em línguas, passou a noite acordada, foi batizada com o Espírito Santo, você se emociona, vibra. Dê qualquer nome a essa experiência; só não a chame de batismo com o Espírito Santo. Ninguém está negando a validade de tais experiências. Experiências acontecem sempre. Pode ser a segunda, a terceira, a quarta etc. Acontecem muitas ─ dramáticas, compulsivas e carismáticas. No entanto, “todos fomos batizados pelo mesmo Espírito, e a todos nos foi dado beber do mesmo Espírito”.

Já vi cair um endemoninhado na igreja e o pastor dizer: “Fiquem de pé todos os batizados com o Espírito Santo para expulsar esse demônio”. Na minha igreja, se disserem isso, eu contradigo: “Fiquem de pé todos. Porque todos fomos batizados com um só Espírito num só Corpo”. Não estou negando experiência dramática com Deus. Mas não a chamo de batismo com o Espírito Santo, porque ─ teologicamente falando ─ a terminologia é inadequada para a caracterização de uma chamada segunda benção; é um termo sinônimo de regeneração e novo nascimento. Por isso, todos nós que somos verdadeiramente de Jesus somos batizados com o Espírito Santo.

Para concluir, quero pensar com você no seguinte: A bíblia ensina que remissão de pecados e batismo com o Espírito Santo são obras inseparáveis e quase simultâneas. No primeiro capítulo de João, o v. 29 diz que Jesus é quem “tira o pecado”, e o v.33 que “ele é o que batiza com o Espírito Santo”. Vamos ver se isso faz sentido. Em Tito 3:4,5, se lê: “Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, ele (...)” Ele o que? “... nos salvou, mediante Fora do Caminho da Graça em Cristo, não há caminho a ser feito! (...)” Mediante o que? “... o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo (...)”. Que ele o quê? “... derramou (...)” Observe que a palavra carismática usada em Atos 10 ─ como no Pentecoste e em todas as manifestações e efusões do Espírito ─ é derramou. Paulo prossegue: “... que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador”.

Vejamos como na teologia de Paulo esse derramar abundante do Espírito acontece na salvação. Quando Jesus nos salvou ele nos regenerou e derramou o Espírito sobre a nossa vida.

Veja em Ezequiel 36:25-27, na profecia que anunciava essa obra íntima e regeneradora do Espírito de Deus no coração dos homens que crescem no Messias, o que está dito a esse respeito: “Diz o Senhor: Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados. Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro em vós o meu Espírito (...)” Observe que quando Deus tira o coração de pedra, tira o pecado, ele coloca em seu lugar o Espírito e sela, marca.

Esse entendimento sobre o batismo com o Espírito Santo traz algumas vantagens.
Primeira Vantagem. Termina-se com a divisão entre batizados e não batizados com o Espírito Santo da igreja. Esta é uma separação que acaba se tornando carnal. Para mim ela é um absurdo, um contra-senso!

Segunda Vantagem. Estimula-se a Igreja a um crescimento constante. Mas o que normalmente acontece quando se adota a teologia de que o batismo do Espírito Santo é uma segunda bênção é que o indivíduo, na maioria das vezes, para aí. Nas reuniões de oração anteriores ao recebimento desse batismo ele chora, crucifica todos os deuses possíveis, mata seu “eu”, cai na impessoalidade. Até que lá um dia tem uma santa crise, sai abençoado da reunião, e proclama orgulhoso: “Hoje rui batizado com o Espírito Santo! Agora tenho poder, estou pronto para pregar!” A partir daí pára, estaciona. Afinal, já tem o status dos abençoados.

Muitas vezes tais pessoas falam desse assunto a vida inteira; não têm outra conversa; não crescem; não saem disso e vivem de memórias. A experiência delas passa a ser uma relíquia.

Mas quando se adota a perspectiva de enchei-vos do Espírito, “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor (...) dando sempre graça por tudo a nosso Deus e Pai (...) sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo”. O imperativo plural, no grego, está na voz reflexiva, o que implica diuturna rendição, como vimos no capítulo anterior; o tempo indica ato contínuo no original: Continue se enchendo; não há teto, há sempre mais... Ninguém pode dizer: “Atingi o ápice”. O que precisa é reconhecer sempre: “Estou apenas começando; nada sei, nada tenho”.

Terceira Vantagem. As pessoas cheias do Espírito Santo não são identificadas apenas porque se comoveram até as lágrimas numa reunião de oração, mas pelos sinais morais de sua vida. Este é um outro problema de teologia pentecostal. Conta-me alguém. “Lá na minha igreja houve 30 batismos com o Espírito Santo na reunião de oração passada”. Aí eu pergunto: “Como é que você sabe? “Porque 30 pessoas choraram, choraram!...”─ é a resposta. Então eu digo: “Já eu penso que na minha igreja todos são batizados com o Espírito Santo, senão não pertenceriam a ela. Isso porque minha pressuposição é de que somente pessoas salvas deveriam ser membros de igreja. Ora, eu não posso penetrar nesta profundidade do ser humano, mas posso pelo menos ouvir-lhes a confissão de fé em Cristo e observar-lhes o comportamento cristão. A única diferença entre os cristãos na minha igreja é que alguns têm vivido mais plenos do Espírito que outros. Mas não é pelo fato de haverem chorado em reuniões de oração que reconheço aqueles que vivem a plenitude de Espírito. Se bem que podem até chorar ─ isso pode ser bom para elas.

Reconheço os cristãos cheios do Espírito pelos sinais morais da sua vida, se frutificam ou não amor, alegria, paz, benignidade, bondade, mansidão e domínio próprio.

Por falar em choro, permita-me dizer-lhe algo pessoal: não pense que falo de choro como se me incomodasse, ou tivesse algo contra. Tenho de viver me controlando, porque choro demais. Mas isto é produto da minha sanguinidade. Não se trata, portanto, de uma virtude especial. Isso porque os homens cheios do Espírito Santo são geralmente identificados apenas por seu temperamento, coreografia ou performance emocional. Embora muitos imponham sinais coreográficos como evidência da plenitude do Espírito: se levantam as mãos, estão cheios do Espírito Santo; se batem palmas, também. As pessoas observam e afirmam, precipitadamente: “O fulano está cheio do Espírito porque louva com espontaneidade e chora com facilidade”. Assim, para muitos, se alguém chora, está cheio de Espírito Santo. Isso tem acontecido pelo fato de sermos ainda muito tolos, julgando as pessoas pelo temperamento.

A verdade é que o homem cheio do Espírito Santo deve ser conhecido pelos sinais morais na sua vida: amor, alegria, fé, bondade, longanimidade, mansidão, verdade, justiça, humildade, domínio próprio. São as evidências, que chamamos de frutos do Espírito. Portanto, de evidência do Espírito ─ talvez fique mais claro!

Quarta Vantagem. O batismo do Espírito Santo como sendo sinônimo de conversão não exclui a confissão e a utilização hoje dos dons espirituais. Temos dois grupos de teologia na Igreja. Um deles pensa da maneira como defendi nesta minha tese sobre o batismo com o Espírito ─ a meu ver justificando até mal a posição. Acontece, porém, que a maioria dos que pensam como eu se colocam numa posição extremada. Dizem, por exemplo: “Batismo com o Espírito Santo é sinônimo de regeneração”. Com o que concordo. Então continuam: “Os dons espirituais cessaram no primeiro século”. Aí eu contesto: “Não”. É nisso que sou diferente deles. Porque eles pensam que o batismo com o Espírito Santo é sinônimo de regeneração, e que os dons cessaram ─ à exceção de uns poucos, adotados por eles pelo fato de os terem julgado menos problemáticos.

Vêm então os pentecostais e dizem: “O batismo com o Espírito Santo é a segunda bênção. O cristão, para ser consagrado, tem que prová-la”. Então contradigo: “Não!” Mas eles insistem: “O Espírito Santo continua concedendo dons hoje”. E eu confirmo: “Sim!” É fácil concluir onde me encontro a esta altura: num campo minado, com tiroteio a esmo, de todo lado. Os pentecostais opinam: “Esse pastor é frio; ele nega que o nome da experiência que tivemos seja batismo com o Espírito Santo”. Esclareço: “Tire apenas o nome; deixe a experiência: você a teve, foi real”. Aí vêm os reformados e afirmam: “Ele afina conosco sé até certo ponto, mas é quente demais para o nosso gosto; vai além da conta”.

Desconheço o que ─ após ler este livro ─ você irá opinar a meu respeito. Haja o que houver, sinto-me muito à vontade para falar sobre este assunto porque, como já disse, pensei pentecostalmente durante os primeiros quatro ou cinco anos da minha vida de convertido. E mesmo que não pense sobre o batismo com o Espírito Santo do mesmo modo que os pentecostais pensam, no entanto tenho tido muitas experiências que poderiam ser classificadas como sendo do tipo pentecostal. Por isso, embora não deseje escandalizar ninguém, vou compartilhar com você alguma coisa nesta área.

Quando pensava pentecostalmente eu vivia de joelhos. Dizia: “Senhor, atenta em mim!
Tenho que ser mais consagrado, submeter-me ao teu Espírito”. Pegava minha moto e ia trabalhar, cantando pela rua, louvando, feliz. No meio do caminho eu me lembrava de que tinha deixado aberto o tubo de pasta de dentes. Convencia-me então de que o Espírito estava me dizendo: “Volta para fechar o tubo!” Quatro quilômetros de distância! “Ah, meu Deus! Preciso submeter esta área da minha vida ao Espírito. Vou voltar”. Chegava lá, fechava o tubo, pegava a moto de novo, andava outra vez os quatro quilômetros, chegava atrasado no trabalho,dava mau testemunho!

Era assim que eu vivia: “Senhor, faze teu servo falar em línguas! Senhor, eu preciso de dom!” Frequentemente jejuava sexta, sábado e domingo (a minha testemunhou isso várias vezes), apenas bebendo água. Ficava de joelhos, clamando: “Senhor, enche a minha vida!” Durante esse tempo jamais falei em línguas. No entanto, eu vivia com Deus. A tal ponto de alguns amigos pentecostais tiveram de dar um jeitinho com relação a mim. Disseram-me, pois: “Irmão, é verdade que a Bíblia ensina que para ser batizado com o Espírito Santo é preciso falar em línguas, mas o irmão apresenta tantas evidências, que no seu caso específico nós acreditamos que já foi batizado.”
Uma ocasião viajei de avião com um teólogo pentecostal e ele me confirmou exatamente isso. Respondi a ele: “Ah, meu irmão, ouvir isso é um conforto para minh‟alma. Porque eu me esforço, nas nunca acontece nada.”

As coisas começaram a mudar quando me dediquei a estudar menos preconceituosamente, a ler a Escritura com tranquilidade, a esmiuçar as Cartas do N.T., e encarar tudo livre da minha ótica pentecostal. Finalmente tive condições de chegar a essas conclusões. Numa quinta feira à noite, disse à minha igreja: “Irmãos, até hoje ensinei a vocês assim... Mas preciso confessar que não creio que estivesse certo!

Os dons de fato existem. Biblicamente tenho prova de que isto é uma realidade. Mas mudei em relação ao que seja batismo com o Espírito Santo. Em janeiro de 1983, num culto de oração na casa de um irmão da igreja, pus-me a exaltar o Senhor, a exaltá-lo e a louvá-lo. No meio do louvor comecei a falar numa outra língua que nunca tinha aprendido ─ aquele fluxo desde o íntimo. Não foi nada violentado, forçado. Algo como sons que jamais ouvira ─ algo novo, edificante para a minha alma. Mas note-se de passagem: não foi a melhor coisa que me aconteceu até o dia de hoje. Tenho sido igualmente edificado conversando com irmãos, louvando, lendo a Bíblia, ouvindo a Palavra. Mas essa experiência me aconteceu profunda e suavemente. Acredito que Deus a permitiu só depois de eu ter mudado de posição, a fim de me provar duas coisas. Primeiro, que línguas não evidenciam coisa alguma; segundo, que eu precisava ter autoridade para falar a respeito do assunto. Porque se eu nunca houvesse passado por essa experiência, a maioria dos carismáticos iria dizer: “Ele está dizendo isso porque nunca provou”.

Contudo, o que desejo sinceramente não é dividir a Igreja de Cristo, mas chamá-la a uma posição equilibrada, bíblica, saudável, onde o Espírito não seja o elemento, mas UNIFICADOR; onde todos tenhamos sido batizados num só Espírito, num só Corpo, e a todos nós haja sido dado beber do mesmo Espírito.

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