O reinado do espinheiro



 O texto que segue aqui transcrito é chamado de Apólogo de Jotão. Quem desejar pode lê-lo no livro de Juízes, na Bíblia. O espírito do texto é claro. Tão claro que prescinde da própria história que o antecede. Ou seja: em si mesmo é uma parábola de aplicação universal, sempre que as circunstâncias se repetem. Ele fala de como os seres qualificados, quase sempre, evadem-se de suas responsabilidades, de tal modo que é o espinheiro quem domina sobre a vida. Leia o Apólogo de Jotão.


“Ouvi-me a mim, cidadãos de Siquém, para que Deus vos ouça a vós outros. Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei; e disseram à Oliveira: Reina tu sobre nós. Mas a oliveira lhes respondeu: Deixaria eu o meu azeite, que Deus e os homens em mim prezam, para ir balouçar sobre as árvores? Então disseram as árvores à Figueira: Vem tu, e reina sobre nós. Mas a figueira lhes respondeu: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, para ir balouçar sobre as árvores? Disseram então as árvores à Videira: Vem tu, e reina sobre nós. Mas a videira lhes respondeu: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, para ir balouçar sobre as árvores? Então todas as árvores disseram ao Espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós”. Juizes 9:7-12.

O Espinheiro aceitou a tarefa, pois ele nunca perde tal oportunidade. Afinal, se não houver “limpeza”, a vocação dos espinheiros é abraçar a terra toda, e engolir as plantas, as quais passarão a existir contidas pelo abraço vegetal e pontiagudo do Espinheiro. A Oliveira, a Figueira e a Videira não reclamaram desse reino na hora da decisão. As demais árvores da floresta também não. Porém, a tirania do Espinheiro se manifestou pela sua própria natureza. O Espinheiro machuca mesmo quando não quer machucar: ele abraça com espinhos. Pode-se colher uvas de Espinheiros e figos de Abrolhos?
 
No meio cristão encontro muitos pastores frustrados. Sentem-se mal com a dominação da fé que hoje é determinada pelo Espinheiro. No curso da história se angustiavam pelo destino das Árvores da Floresta procuraram a Oliveira, com sua unção de azeite; buscaram a Figueira, com sua unção de doçura; e pediram o socorro da Videira, com sua unção de alegria — mas todas elas acharam que o povo saberia a diferença entre o Espinheiro e as árvores frutíferas. Engano deles. O povo só sabe a diferença quando o abraço do Espinheiro já se fez poder e controle. Mas a Oliveira, a Figueira e a Videira dos pastores do Brasil disseram ao povo: Nós não! Deixemos que o Espinheiro reine sobre nós! Os espinhos que hoje nos ferem — e que incomodam as Oliveiras, as Figueiras e as Videiras — são os mesmos que já existiam antes.
 
 Hoje o Espinheiro é o nosso líder. E seus espinhos são o nosso contato. Quem encosta, sai ferido. Quem reclama, que reclame para si mesmo. Sim, ante tanta evidência, tantos testemunhos internos que revelavam as malas de dinheiro, tantas demonstrações públicas e televisivas, tanto despudor na prática do engano, tantas criações de um “evangelho-emacumbado”, tantas brincadeiras com o nome de Deus, tanto dinheiro lavado, tanta gente que sabia, tanta demonstração de que se nos calássemos, nunca mais seríamos os mesmos — por que somente agora é que dizem ver? Essas “malas de dinheiro” são mais velhas que o tempo.
 
Agora, para os “evangélicos”, honestamente, ficou tarde. O Espinheiro e seus filhotes são os “donos da sigla”. Foi-lhes entregue pelos “Esaús” (uma espécie daninha que faz ‘trocas circunstanciais’), que por dinheiro, chances na televisão, medo, “excitamento fenomenológico”, ou simplesmente porque já estavam contaminados pelas mesmas práticas e pelo mesmo espírito, entregaram tudo ao Espinheiro.
 
Então, quem quiser andar no caminho do Evangelho, que faça a jornada conforme a Palavra. Que o Senhor nos livre da tirania do Espinheiro. Que o Senhor desperte as Oliveiras de sua arrogância, as Figueiras de seu narcisismo, e as Videiras de sua alegria auto-centrada. Que reinem sobre nós os frutos da unção, da doçura e da alegria. Que o Espinheiro volte para o seu lugar. Salva o teu povo, ó Senhor! Nele, em Quem sei que na hora o Espinheiro será de todo removido pela Sua própria mão.

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