A primeira vez que li sobre o Pr. Silas Malafaia foi no ano de 1992, através do Jornal O Mensageiro da Paz, jornal oficial da AD, ligada a CGADB. Era uma matéria sobre os 10 anos do Programa Renascer na TV, programa de TV feito pelo Malafaia. Depois mais para frente ele mudou o nome do Programa para Vitória em Cristo. Naquele tempo, ele ainda era um pastor filiado a CGADB, auxiliando seu sogro na AD da Penha no Rio de Janeiro/RJ.
A partir do final de 1993, passei a acompanhar nas manhãs de sábado na extinta TV Manchete os programas do Pr. Caio Fábio que se chamava "Pare & Pense". O do Silas vinha logo após e algumas vezes eu assistia também. Com a saída do Caio Fábio da tv aberta a partir de 1999, vez ou outra via o programa daquele pastor de bigode, que as vezes tinha até uma palavra boa, mas sinceramente que nunca gostei do seu estilo de atacar tudo que vem pela frente. Para mim, parecia mais um "Programa do Ratinho" as vezes.
Nos anos 90, os nomes de pastores evangélicos que tinham programas na TV eram: Edir Macedo (IURD), Nilson Fanini (batista), Caio Fábio (presbiteriano na época), R.R. Soares (Internacional da Graça) e tinha também, Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Valnice Millomens, entre outros.
Da igreja Assembléia de Deus, o primeiro pastor que teve programa na TV aqui no Brasil foi o missionário norte americano Bernard Johnson. Ele falava o português fluentemente, pois tanto seu pai como ele foram missionários no Brasil. O Silas chegou na TV, bem jovem em 1982, seu programa no entanto não era denominacional mas personalizado nele.
Os evangélicos na sua maioria eram meio desligados da política até 1982. A partir desse ano, começaram a se mobilizar para eleger representantes em Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas e no Congresso Nacional. Em 1986, deu um saldo, elegendo uma pequena bancada que fez parte da Constituinte que elaborou a Constituição de 1988.
Durante os anos de 1991 a 1998, o maior nome evangélico de influência junto aos meios de comunicação foi sem dúvida o então pastor presbiteriano Caio Fábio de Araújo Filho. O reverendo Caio Fábio, escrevia livros, alguns em estilo livreto, e vendia muito. Tinha programa na TV, e em 1995 lançou uma revista evangélica de nome Vinde e no ano seguinte um canal de TV a cabo, chamado VindeTV.
Não era presidente de nenhuma denominação, mas tinha uma instituição para-eclesiástica chamada VINDE que era através da qual ele geria seu ministério em várias frentes como: cruzadas evangelísticas, encontros de pastores, de jovens, seus livros, revista, programa de tv. Ele pregava no Brasil inteiro, em várias denominações e no exterior. Além dessa instituição ele juntamente com pastores de várias denominações criou a AEVB, uma associação de pastores, com a intenção de representar os evangélicos no Brasil. Caio foi seu primeiro presidente.
Também acabou entrando na área social, com destaque para a Fábrica de Esperança, localizada na favela de Acari no Rio de Janeiro, um grande programa social para crianças e jovens, que ganhou apoio governamental e apoio da mídia, como a própria TV Globo.
Tinha boa interlocução com alguns políticos como o ex-governador do Rio Nilo Peçanha, Brizola, Lula, Ciro Gomes, Benedita da Silva, Antonny Garotinho, Artur Virgílio, entre outros.
Dois fatos em 1998 tiraram Caio Fábio de cena: seu divórcio da primeira esposa e o Dossiê Cayman. Durante quase uma década, ele foi uma espécie de representante evangélico perante a imprensa no Brasil, fazendo um contraponto ao outro líder evangélico famoso, mas rejeitado pela imprensa e até por muitos líderes evangélicos: Edir Macedo.
Com a saída de cena do Caio Fábio ficou um vácuo de liderança representativa evangélica. Quem seria seu substituto? Caio além de falar bem, ser habilidoso para se relacionar com personalidades diversas sejam líderes de denominações evangélicas, bispos católicos, políticos, jornalistas, intelectuais, era também alguém que era conhecido como um bom pregador e um dos principais pensadores evangélicos de então.
Nos anos 2000, em diante foi aí que a figura do Pr. Silas Malafaia foi ganhando mais vulto para ir ocupando uma parte do espaço antes utilizado por Caio Fábio. Em algumas áreas ele ocupou o espaço ocupado por Caio, como nos programas de TV, cruzadas pelo Brasil, pessoa sempre convidada pelos canais de tv para falar sobre temas que os evangélicos estão envolvidos. Lançou vários livros no estilo livreto, igual o Caio Fábio e vendeu muito também. Apesar de não ser um pensador no estilo intelectual, influencia ao se posicionar de forma veemente sobre diversos temas como: aborto, homoafetividade, G12, teologia da prosperidade, etc
Nos anos 90, ele atacava o movimento G12, teologia da prosperidade, anos depois lá estava ele se alinhando com os líderes do G12, e ligados a teologia da prosperidade. Chegava a trazer em seus programas pastores norte-americanos como Mike Murdock, Morris Cerullo para pedir ofertas bem significativas na tv.
Já atacou e defendeu Edir Macedo, Marco Feliciano, Lula, Bolsonaro. Com relação a Caio Fábio, os dois são antagonistas um do outro. A lista pode ser grande. Em 1989, apoiou Brizola na eleição presidencial, em 2002 estava com Lula, em 2010 começou com Marina Silva e terminou com José Serra. Em 2014 com Aécio Neves. Em 2016, ficou com raiva de Bolsonaro e declarou apoio a João Dória, em 2018 já estava com Bolsonaro novamente.
A partir de 2010, dois fatos influenciaram a trajetória do Malafaia. Naquele ano, ele renuncia a 1ª Vice-Presidência (havia sido eleito no ano anterior) da maior convenção assembleiana - CGADB e já anuncia seu desligamento da convenção como ministro. No mesmo ano, seu sogro que era o Pastor Presidente da Assembléia de Deus na Penha no Rio de Janeiro, faleceu. Malafaia era o vice-presidente da igreja, assume a presidência, e muda o nome da igreja para ADVEC, praticamente tornando ela uma denominação independente.
O outro fato, foi algo que já vinha sendo costurado há algum tempo, sua aproximação com o então deputado federal Jair Bolsonaro, que se intensificou depois do ataque quem ambos fizeram em 2011 ao chamado "Kit Gay". Em 2013, Malafaia faz o casamento de Bolsonaro e Michelle, o casal já estava juntos desde 2007. Em 2018, ele foi um dos fortes cabo eleitoral de Bolsonaro nas eleições presidenciais daquele ano.
Durante a presidência de Jair Bolsonaro entre 2019 a 2022, Malafaia se torna uma espécie de "conselheiro espiritual/político" do então presidente. Sempre é visto, filmado e fotografado ao lado do Presidente, seja no Palácio do Planalto ou em eventos como manifestações públicas. Seu programa de tv e suas redes sociais mudam o tom, em vez de pregações e temas religiosos, agora seu foco são temas mais ligados a política, mas sempre dirigidos aos evangélicos e com o tempo passa a dirigir a todo povo brasileiro.
Ele passa também a atacar quem Bolsonaro ataca, e também opina e tenta influenciar o Presidente da República na nomeação de ministros de Estado e até ministros da Suprema Corte, o STF.
Ataca em suas redes sociais e programa de tv, a maioria de jornais e canais televisivos, com destaque para a Globo e Folha de São Paulo. Ataca também políticos como Lula, candidato e depois eleito Presidente da República em 2022 e ministros do Supremo Tribunal Federal, principalmente Alexandre de Moraes e Luis Roberto Barroso.
Sua formação é como psicólogo, mas passa a dar opinião e tentar influenciar sobre assuntos jurídicos, sem ter formação acadêmica para tal. Aliás não é bem opinião, são ataques.
No recente documentário feito para Netflix, "Apocalipse dos Trópicos", a produtora do filme, Petra Costa, deu grande destaque ao pastor, que deixou ela o filmar em sua casa, no no seu avião e até dentro do seu carro.
No documentário, Malafaia aparece nos movimentos pré-impeachment da ex-Presidente Dilma, depois fazendo campanha para Bolsonaro em 2018, e passada a eleição, o recebendo em sua igreja. Mostra Malafaia dizendo que se Bolsonaro não indicasse um ministro para o STF evangélico, haveria consequências. Depois ele é mostrada em sua bela casa, dentro do carro, brigando com alguém no trânsito e dizendo que seus seguranças vão dar um susto na pessoa. Mostra ele dentro do seu avião e também nas manifestações junto com Bolsonaro contra o STF.
Porém Malafaia, ao contrário do que o documentário tentar apresentar não tem essa representatividade toda em relação aos evangélicos. Ele não representa nem a denominação Assembléia de Deus, pois sua igreja - Assembleia de Deus Vitória em Cristo não está dentro de nenhuma das 3 convenções nacionais assembleianas: CGADB, CONAMAD e CADB.
Ele também não fala em nome de todos os evangélicos, porque esse é um seguimento da sociedade bem fragmentado, desde o início do protestantismo foi assim. Não existe um Papa evangélico. Não existe um Vaticano evangélico. Cada denominação fica dentro do seu quadrado.
Agora sim, existem temas que pode haver uma concordância com grande parte dos evangélicos, mas não todos, porque existem evangélicos mais conservadores e outros mais progressistas. Tem gente mais moderada e tem gente mais extremista.
Temos como aborto, homoafetividade, liberdade religiosa, evangelismo, podem unir muitos sob a mesma bandeira, mas não unanimidade.
Acontece que o Malafaia pode até ser um influencer hoje, e de fato, tem pessoas sejam elas evangélicas ou não que pensam como ele sobre vários temas ligados a política e costumes da sociedade. Mas ele está cada vez mais se tornando mais um líder político do que um pastor. Se amanhã ele for candidato a Presidente da República não será tanta surpresa assim.
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